poisia

quarta-feira, dezembro 15, 2004

pois ia

BREVE BEIJO

Aceito-te desde que sejas breve.
Nada de eternidades
Ou de falsas promessas.
Que o teu olhar longo
Ilumine instantaneamente
O meu corpo.
Que os teus lábios
Digam do prazer
E testemunhem por agora
A felicidade que sentimos.
Desconheço a palavra amanhã.
Quando quiseres tomarás
O pouco que trouxeste
E, procurarás novos braços...
E eu, acostumado a amores
Que se vão,
Deixarei uma leve,
Mas muito leve,
melancolia tomar o peito,
Apenas aguardando
O próximo beijo breve.

TÁKI ATHANÁSSIOS CORDÁS
(REVISTA “A cigarra” n.º 33)


POÉTICA
Eu quisera ser claro de tal forma
Que ao dizer
- rosa!
Todos soubessem o que haviam de pensar.

Mais: quisera ser claro de tal forma
Que ao dizer
- já!
Todos soubessem o que haviam de fazer.

GEIR CAMPOS (do livro “Tarefa”)

TAREFA
Morder o fruto amargo e não cuspir
Mas avisar aos outros quanto é amargo,
Cumprir o trato injusto e não falhar
Mas avisar aos outros quanto é injusto,
Sofrer o esquema falso e não ceder
Mas avisar aos outros quanto é falso;
Dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
-do amargo e injusto e falso por mudar–
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

GEIR CAMPOS, em “Tarefa”

ALBA
Não faz mal que amanheça devagar,
As flores não têm pressa nem os frutos:
Sabem que a vagareza dos minutos
Adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
de leste – o que nos cabe é Ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.

GEIR CAMPOS, em “Tarefa”


RÁPIDO E RASTEIRO
Vai Ter uma festa
Que eu vou dançar
Até o sapato pedir para parar
Aí eu paro, tiro o sapato
E danço o resto da vida.

CHACAL


CIÚME
Aquele no espelho a quem me assemelho
-um pouco mais novo,
um pouco mais velho-
armado até os dentes,
que a escova palmilha,
o tabaco amarela,
que me diz bom dia
apesar do que me revela
e que sem cerimônia me olha familiar
sem ver como me espanta
com seu ser e com seu ar
Será, de repente, o rival indecente
que interessa a ela?

RUBENS RODRIGUES TORRES FILHO


Com meus olhos de cão diante do mar. Trêmulo e doente.
Arcado, magro, farejo um peixe entre madeiras. Espinha. Cauda. Olho o mar mas não lhe sei o nome. Fico parado em pé, torto, e o que sinto também não tem nome. Sinto meu corpo de cão. Não sei o mundo nem o mar a minha frente. Deito-me porque o meu corpo de cão ordena. Há um latido na minha garganta, um urro manso. Tento expulsá-lo mas homem-cão sei que estou morrendo e que jamais serei ouvido. Agora sou espírito. Estou livre e sobrevôo meu ser de miséria, meu abandono, o nada que me coube e que me fiz na terra. Estou subindo, úmido de névoa.
HILDA HILST

FRUTA BOA

É maduro o nosso amor, não moderno
Fruto de alegria e dor, céu inferno
Tão vivido o nosso amor, convivência
De felicidade e paciência
É tão bom...

O nosso amor comum é diverso
Divertido mesmo até, paraíso
Para quem conhece bem
Os caminhos do amor
Seu vai e vem
Quem conhece

Saboroso é o amor, fruta boa
Coração é o quintal da pessoa
É gostoso o nosso amor
Saboroso é o amor madurado
De carinho
É pequeno o nosso amor, tão diário
É imenso o nosso amor, não eterno
É brinquedo o nosso amor, é mistério
Coisa séria mais feliz dessa vida

(MILTON NASCIMENTO E FERNANDO BRANDT)

A idéia da morte chega sempre com os passos de lobo, com andar de cobra. Os pensamentos que nos enlouquecem com a pior das loucuras, a da tristeza, chegam pouco a pouco. Hoje não os notamos; talvez amanhã também não, nem em um mês inteiro. Mas passa esse mês e começamos a sentir amarga a comida e doloroso o recordar; já estamos contaminados.
CAMILO JOSE CELA, em “A família de Pascoal Duarte”

Creio que o homem não somente prevalecerá; não porque ele somente, entre todas as criaturas, tenha uma voz inesgotável, como também porque tem alma, um espírito capaz de compaixão, de sacrifício e de perseverança.
WILLIAM FAULKNER

Se tu queres ver a imensidão do céu e mar refletindo a prismatização da luz solar rasga o coração, vem te debruçar sobre a imensidão do meu penar.
ODUVALDO VIANA FILHO

SAGRAÇÃO
Canto tudo que tem vida no planeta
pedra, planta, caracol
os gatos mais pobres das ruas
os cães mais sardentos

Canto a doçura dos homens
E a solidez das mulheres
- as mães do mundo -
canto com prazer
o duro exercício de viver
e sei que há Deus e sei que há
em nós toda resposta
Canto a cada manhã tudo o
que se renova
com os olhos brilhantes úmidos
de tentar compreender
todas as coisas.
JANDIRA HANSSEN

Tenho o alfabeto
E o dicionário inteiro
Para lutar na página em branco
Com meu destino solitário
LUIZ BUSATTO

CANÇÃO SENSATA

Dora, que importa
O juiz que escreve
Exemplos na areia,
se livre seguimos
o rastro dos faunos,
a voz das sereias?

Dora, que importa
A herança do avô
Sob a pedra, nua,
se do ar colhemos
Moedas de sol,
Guirlandas de lua?

Dora, que importa
Esse frágil muro
Que defende os cautos,
Se além do pequeno
Há horizontes loucos,
De que somos arautos?

De maior beleza
É, pois nada prever
E à fina incerteza
De amor ou viagem
Abrir nossa porta.
Dora, isso importa.

JOSE PAULO PAES

CONVERSA ELEGANTE
Observo nossa sentimental amiga, a lua!
Ou talvez (é fantástico, admito)
Seja o balão do preste João que agora fito
Ou uma velha e baça lanterna suspensa no ar
Alumiando pobres viajantes rumo a seu pesar
E ela: “como divagais!”

Eu, então: “alguém modula no teclado
Esse noturno raro, com que explicamos
A noite e o luar; partitura que roubamos
Para dar forma ao nosso nada”.
E ela: “me dirá isso respeito?”
“Oh, não! Eu é que de vazio sou apenas feito.”

“Vós, senhora, sois a perene ironia,
A eterna inimiga do absoluto,
A que mais de leve torce nossa tristeza erradia!
Com vosso ar indiferente e resoluto,
De um golpe cortais à nossa louca poética os seus mistérios...”
E ela: “seremos afinal assim tão sérios?”

T. S. ELLIOT


HOMO

Trata-se de um ser de uma afetividade imensa e instável,
Que sorri, ri, chora, um ser ansioso e angustiado,
Um ser gozador, embriagado, estático, violento, furioso, amante
Um ser invadido pelo imaginário, um ser que conhece a morte e não pode acreditar nela,
Um ser que segrega o mito e a magia, um ser possuído pelos espíritos e pelos deuses,
Um ser ser que se alimenta de ilusões e de quimeras,
Um ser subjetivo cujas relações com o mundo objetivo são sempre incertas,
Um ser submetido ao erro, ao devaneio, um ser híbrido que produz a desordem.
E como chamamos loucura à conjunção da ilusão, do descomedimento,
Da instabilidade, da incerteza entre o real e o imaginário,
Da confusão entre o subjetivo e o objetivo, do erro da desordem,
Somos obrigados a ver o homo sapiens como homo demens.
Edgard Morin

Estive doente
Doente dos olhos, doente da boca, dos nervos até.
Dos olhos que viram mulheres formosas
da boca que disse poemas em brasa
dos nervos manchados de fumo e café.
Estive doente estou em repouso, não posso escrever.
Eu quero um punhado de estrelas maduras
Eu quero a doçura do verbo viver.

De um louco anônimo – transcrito por Caco Barcelos na reportagem “Crime e loucura” – Folha da manhã e citado por Caio Fernando Abreu em “O ovo apunhalado”, Ed. Globo, 1976.

SUBSTANTIVOS
Faca é faca
Pão é pão
Fome é fome
Amor é amor
Estranho desígnio das coisas
De serem exatamente elas
Quando as olhamos sem paixão.

Tanussi Cardoso

O artista, o poeta, é aquele que não comete suicídio. Ele está vivo apesar de tudo porque arte é, essencialmente, uma forma de vitalidade, uma afirmação de vida. Onde não há vitalidade não existe arte.

Pier Paolo Pasolini


MUDANÇAS
O tempo pôs a mão na tua cabeça
E ensinou três coisas. Primeiro:
Você pode crer em mudanças
Quando duvida de tudo, quando
Procura a luz dentro das pilhas,
O caroço nas pedras, a causa
Das coisas, seu sangue bruto.

Segundo: você não pode
Mudar o mundo conforme o coração.
Tua pressa não apressa a história.
Melhor que o teu heroísmo,
tua disciplina na multidão.

Terceiro: é preciso
Trabalhar todo dia, toda madrugada
Para mudar um pedaço de horta,
Uma paisagem, um homem.
Mas mudam, essa é a verdade.

Domingos Pellegrini Jr.

NA CORDA BOMBA
Entre o ódio e o amor
Entre a violência e a luta
(o medo)
entre Deus e o demônio
entre a vida e a tevê
(o sonho)
entre o gesto e o ato
entre a palavra e o fato
(o risco)
entre a fome e a mesa
entre a gaiola e o pássaro
(o salto)
entre a notícia e a verdade
entre a imaginação e o vento
(a faca)
entre a mudez e o grito
entre o desejo e o sexo
(o frio)

Tanussi Cardoso


Quisera
Falar-te
Em beijos.
Assim
Conseguiria
Dizer
Minha necessidade
De ti,
Minha sede
De ti.

Pablo Neruda

Ela é um produto
da dificuldade
metade osso metade algodão
temos nos correspondido
com frequência
dezembro janeiro fevereiro
(mas ainda estamos em março)
toda Segunda-feira é ambígua
o tempo passa melancólico
página por página se desprende

Quanto a escrever
sinto-me como uma criança num barco
cheio de moscas azuis
entre um capítulo e outro
atravessa a noite
memória convencional do dia
daqui a meia hora
a luz artificial será insuficiente
não dou muita importância
afinal o ano não começou mesmo agora

Um cachorro de passos rápidos me disse que a juventude
não passa de uma inclinação de cabeça.
daí em diante comecei a ver minha mãe
e os livros que escolheria

Meu pai – um homem de mentalidade ativa – tinha pés
magros e não gostava de descrever pessoas.
O casamento para eles tinha pouca tiragem
e palavras em miniatura.
Levantei-me com um desejo enorme de descansar.

MAIRA PARULLA

TÁTICA E ESTRATÉGIA

Minha tática é te olhar
aprender como és
te querer como és
Minha tática é te falar
E te escutar
Construir com palavras
Uma ponte indestrutível
Minha tática é
Ficar em tua lembrança
Não sei como
Nem sei com que pretexto
Mas ficar contigo
Minha tática é ser franco
E saber que tu és franca
E que não nos vendamos
Fingimentos
Para que entre nós
Não haja véus nem abismos
Minha estratégia é em troca
Mais profunda e mais simples
Minha estratégia é
Que um dia qualquer
Não sei como
Nem sei com que pretexto
Enfim de mim precises.

MARIO BENEDETTI


SOMOS PROFISSIONAIS

Não vamos agredir
Agredir não é fácil, mas transfere responsabilidades
Viemos aqui cumprir a nossa missão
A de artistas
Não de juízes de nosso tempo
A de investigadores
A de descobridores
Ligar a natureza humana à natureza histórica
Não estamos atrás de descobertas
Não somos profissionais do espanto
Para achar água é preciso descer terra adentro
Encharcar-se no lodo
Mas há os que preferem olhar os céus
Esperar pelas chuvas.

ODUVALDO VIANA FILHO

MADRIGAL

Meu amor é simples, Dora,
como água e o pão.

Como o céu refletido
nas pupilas de um cão.

JOSÉ PAULO PAES

TRANSGRESSÕES

Todo mandato é minucioso
e cruel
eu gosto
das frugais transgressões

por exemplo inventar o bom
amor
aprender
nos corpos e em seu corpo

ouvir a noite e não dizer
amém
traçar
cada um o mapa de sua audácia

mesmo que nos esqueçamos
de esquecer
é certo
que a recordação nos esquece

obedecer cegamente deixa
cego
crescemos
somente na ousadia

só quando transgrido alguma
ordem
o futuro se torna respirável

todo mandato é minucioso
e cruel
eu gosto
das frugais transgressões

MARIO BENEDETTI


A PONTE

Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar

venho com as faces da insônia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra

nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco

eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar
sem prevenções

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

MARIO BENEDETTI

CANTO 34
Vamos passar o carnaval na praia ou na montanha?
Negativo. O país precisa de sacrifícios.
Vamos passar o carnaval nos amplos salões internos do ser,
onde reina constante alegria e perene primavera.
O querubim dança, no céu, sobre facas
e o vertido flui para o coração aberto
da santa que dança no espaço,
montada num centauro, à luz da lua.
Notícia: Recife, Salvador e Rio já destruídas pelo mar.
O oceano chega aos mais altos da serra.
Cavalos alados percorrem a imensidão,
E o velhinho toma chá de carqueja e boldo.
Um cheiro de barata domina toda a costa sul.
Evoé, evoá, Baco se esconde num apartamento em Paris.

Nada mais a declarar, exceto que os canais da terra
enchem-se de sangue, e lágrimas e lamúrias.
Dançarinos espacam no vazio global,
é a vingança das cigarras: as formigas cantam.
Além, muito além, na terra virgem de cães
ladram maestros tocando berimbaus.
Os cemitérios todos abrem as sepulturas,
e ossadas se levantam ao som da música da vida.

Nós, os que fugimos, também brincamos carnaval,
apenas em outro nível, em outra dimensão,
surdos dispensamos orquestras, cegos não precisamos
de fantasias coloridas: acatamos as ordens do Sultão,
e nesse beco matutino, mentimos a nossos pais.

RENATO PACHECO

A diferença entre confiar e ser ingênuo é vasta,mesmo assim a linha divisória é muito sutil.Ser ingênuo significa ser ignorante.Confiar é o ato mais inteligente da existência.
E os sintomas a serem lembrados são:ambos serão enganados,ambos serão trapaceados,mas a pessoa que é ingênuase sentirá enganada, trapaceada,ficará com raiva,começará a não confiar nas pessoas.Sua ingenuidade, mais cedo ou mais tarde,se torna desconfiança.
E a pessoa que confia também seráenganada, trapaceada,mas não vai se sentir lesada.Ela simplesmente sentirá compaixãopor aqueles que a enganaram,que a trapacearam,e sua confiança não será perdida.Sua confiança jamaisse transformará em desconfiançapara com a humanidade.Esses são os sintomas.
No princípio, ambos parecem iguais.Mas, no final, a qualidade da ingenuidadese transforma em desconfiança,e a qualidade da confiançacontinua a se tornar mais confiança,mais compaixão,mais compreensão das fraquezas humanas,da fragilidade humana.
A confiança é tão valiosaque a pessoa está disposta a perder tudo,menos a confiança.

Do livro: Mais Pepitas de Ouro (Osho)

FROM DORES DO RIO PRETO WITH LOVE

Porque eu poderia estar em frente ao Big Ben e não estou, estou diante do relógio da matriz católica a ver o tempo passar e não posso me afogar nas águas do Tâmisa por que o rio que corre nesta cidade, limitando-a, é o rio Preto, e porque é meio-dia e estou a ver o tempo no relógio, não esqueço que não estou no coração de Nova York, e estas pessoas que passam, poucas, me acenam porque não estou sobre a ponte sobre o Hudson nem estou pronto para o mergulho com uma pedra amarrada ao pescoço. Porque não posso me lançar do último andar do Empire State estou na praça ao meio-dia nesta cidade de poucos habitantes, e não posso me lançar de andar algum porque nenhum edifício está situado nesta latitude, e meu coração me atrapalha as pernas. Porque não empunho um revólver apontado ao meu próprio ouvido, estou nesta cidade, sendo alvo de olhares, todos muito discretos, porque estou na praça da matriz católica e não estou na catedral de Notre Dame nem estou no Louvre a ver minha própria imagem de cera. E como não posso ver a baía de Vitória nem a baía dos Porcos estou com um míssil apontado para o meu miocárdio, enquanto a moça dos Correios me anuncia a chegada de uma carta que poderia vir de Londres, Berlim ou Paris, mas não. Porque estou com pé aqui e outro ali, um num Estado, outro no outro, um rio corre entre minhas pernas, e corta-me o coração banhado, um rio doce corre. E como não estou com os olhos banhados de lágrimas, um rio corre em meu rosto e prossegue sua história neste mapa de lembranças, porque Hong Kong está muito longe de mim, está longe e não devo me apressar para a hora da morte porque sei que um franco atirador me tem por alvo e não entrincheirado estou neste lugar assim como estive em Dallas, quando sobre mim caiu pesado sono, e o sonho veio. E estive perto da solidão, em Arizona, aqui. E pesada solidão desaba sobre o meu chapéu, e tenho o meu lugar à sombra, longe do sol, longe assim, agora.
MARCOS TAVARES



GEMA GEMIDO
a Oscar Gama Filho


dia a dia. adiado o tardio parto. perto.
festa a floresta porque flore a manhã.
alvorada, a ave vê alvo o céu e alto
voa à luz do sol . seu par de asas sobre-
­voa a verde mata --- matutino vôo,
sem meta. no ar, vão batendo vão
batendo vão, as asas --- feixe de penas.
à hora nona, ora evola céu afora
ora parte da altura em raso vôo
em volta ao ninho meteórica partida
a seu nicho ecológico --- auriverde área.
em breve pausa, ao meio-dia pousa brava
via oral , via aérea, ousa sua selvagem
melodia --- maviosa voz ao véu alvianil.
e logo após impõe às asas o movimento.
céu, vôo --- seu ovo . clara metáfora.
seu vôo, arauto de uma nova eva , aérea.
finda o voar ao fim da parda tarde.
pôr-do-sol, a dor do pôr-o-ovo:
adorado ardor de ave ávida à vida.
após posto o ovo , o vôo suave.
de árvore em árvore - o ar de amar.
mãe solteira na tarde, solitária.

MARCOS TAVARES



PELA RUA

Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.

Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.

A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
Talvez na rua ao lado, talvez na praia
Talvez converses num bar distante
Ou no terraço desse edifício em frente,
Talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
Misturadas às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
Disseminada pela cidade.

A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
Continuo
E meu coração vai repetindo teu nome
Abafado pelo barulho dos motores
Solto ao fumo da gasolina queimada.

FERREIRA GULLAR

GOMES & GUMES

Todo poema tem dois gomes toda faca tem dois gumes
De um eu não digo os nomes da outra não mostro os lumes
Se um corta com palavras a outra com corte mesmo
Se um é produto da fala a outra do ódio a esmo

Todo poema tem dois gomes toda faca tem dois gumes
E um amor cego nas assa brilhante de vagalumes
Se em um é linguagem é sacana na outra o corte é estrume
É fio estrela na lavra mal cheiro vício costume
De um eu não digo os nomes da outra não mostro os lumes

Se em um a coisa é sagrado ofício vindo das vísceras
Na outra a fé e lacrada servida nas missas
Se em um é cebola cortada aroma palavra carniça
Na outra o ferro é tempero – fé cega fome amolada
Poema é só desespero.

ARTUR GOMES

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade,
o presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mão dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

PROVERBIOS E CANTARES

Caminhante, são teus passos
O caminho, e nada mais;
Caminhante, não há caminho,

O caminho se faz ao andar
Ao andar faz-se o caminho,
E a voltar-se a vista atrás
Vê-se a trilha que nunca
Se tornará a pisar

Caminhante, não há caminho,
Somente brisas no mar.

ANTONIO MACHADO, poeta espanhol (1875-1939)


Eu fiz um grande esforço pra imaginar o pensamento de S. quando olhei tudo que ela me apresentava: formas bonitas e rosto sensibilíssimo. Não me movi e a convenci de que não precisava dela por um momento sequer.
O lugar onde estávamos era parecido com uma igreja sem ter aquele ar de igreja, sem dar aquela sensação que sempre dá estar numa igreja.
S. queria me dizer algo e abriu a boca; eu não resisti e reclamei silencio. Havia agora um quê de ressentimento em seu olhar. Enviei desculpas telepáticas e fomos saindo, enquanto olhava ao redor e acreditava mesmo que aquilo era uma igreja. Mas, sem dúvida, faltava a cerimônia que envolve uma igreja.
Eu caminhava e S. me acompanhava com seu passo rápido, seu andar esticado, pernas abertas ao vento. Íamos, agora, vagar pelas ruas, silenciosos e atentos a tudo que se nos mostrasse.
S. era quem ficava mais contente com essas raras incursões que promovíamos pela cidade. Achava graça e beleza nas vitrines sempre cheias de novidades. Me olhava olhares que enchiam de emoção o meu rosto. E todas as sensações vazavam daquele lugar comum para irem de encontro às pessoas, que nem se apercebiam de nosso sonho.
Mero acaso percebi uma loja que vendia brinquedos e lhe disse, voz baixa, que poderia lhe dar algo. – Um presente? Ela me olhou de passagem e não paramos. Me venceu, como sempre, com sua persuasão silenciosa.
Invadiu-me triste sentimento. Pensei que aquilo ia durar algum tempo e não aproveitaria minhas horas ao seu lado tendo que aceitar suas recusas tácitas. Me comprometi a mudar esse jogo de negativas. Com o tempo aprenderíamos a não ser assim. Já aprendêramos o mais difícil: a acertar nossas diferenças a um simples olhar, que podia ser de rejeição ou de aquiescência. Nós já conhecíamos os códigos.
Caminhamos mais, silenciosos e atraídos por tudo que era vivo e estava ao alcance dos olhos.
Subitamente as ruas foram se tornando rígidas e vazias. S. entendeu isso e disse que já era hora de irmos embora. O ritual estava acabado.
Nos tornaríamos a ver quando existisse outra terça-feira. O outono era imprescindível às nossas tentativas de fuga. Um carro passou, buzinando, chamando a atenção dos pedestres e fazendo com que a realidade se abatesse sobre nós. S. me beijou e partiu, levando suas formas e seu rosto. Também levava uma vida quase inteiramente surgida ao acaso. Olhou ainda uma vez e vi que não partia sem dificuldades.

MAIO DE 1985

Ode ao estilo Alberto Caeiro
“A nossa única riqueza é ver” (F. Pessoa)

Quero olhos prá ver
mas se não os tivesse
nem me importaria
porque, mesmo assim,
posso defini-la,
imaginá-la em suas formas
cruzar suas intenções
aspirar seus limites
intuir sua linguagem
dominar sua inquietude
definir seu medo
Olhos?
se não os tivesse
não deixaria de te encontrar.
13/10/2000

POEMA CIRCENSE

Atirei meu coração às areias do circo como se atira
ao mar uma âncora aflita. Ninguém bateu palmas. O
trapezista sorriu, o leão farejou-me desdenhosamente,
o palhaço zombou de minha sombra fatídica.

Só a pequena bailarina compreendeu. Em sua mãos
de opala, meu coração refletia as nuvens de outono,
os jogos de infância, as vozes populares.

Depois de muitas quedas aprendi, sei agora vestir
com razoável destreza, os risos da hiena, a frágil
polidez dos elefantes, a elegância marinha dos corcéis.

Todavia, quando as luzes se apagam, readquiro antigos
poderes e vôo. Vôo para um mundo sem espelhos
falsos, onde o sol devolve a cada coisa a
sombra natural e onde não há aplausos,
porque tudo é justo, porque tudo é bom.

JOSÉ PAULO PAES


Há dez
centímetros
de silêncio
entre
tuas mãos e
as minhas mãos.
Uma fronteira
de palavras
não ditas
entre teus lábios
e os meus.

MÁRIO BENEDETTI


A vida
Humana
- na verdade
toda a vida-
é poesia.
nós a vivemos
inconscientemente,
dia a dia,
fragmento a
fragmento
mas na sua
totalidade
inviolável
ela é que
nos vive!

LOU ANDREA SALOMÉ

Enquanto te vejo, te recordo
teu corpo claro, teus ásperos cabelos
Estarei te tendo para sempre
ou apenas no agora te entrevendo?
Percorro os ossos do teu rosto
Imerso na claridade sombria desta tarde
FRANCISCO ALVIM

Eu sou ninguém; meu nome é ninguém
Toda coisa que existe é uma luz
FRANCISCO ALVIM

ÁGUA
Falar de ti
é falar de tudo que passa
no alto dos ventos
na luz das acácias
é esquecer os caminhos
apagar o enredo
é pensar as formas do branco
como teu corpo numa praia
branda e azul
Tua pele não retém as horas
escorres, líquida
sonora
FRANCISCO ALVIM

CÉU PROFUNDO

Vejo nuvens, estrelas

Em minha alma
o amor tange um alaúde crepuscular

Parada, a nuvem me olha
por trás da vidraça

Este céu imenso
é pequeno
para conter todo o sofrimento
do meu olhar

Vejo que o grande guindaste deixou cair
a própria sombra no chão

Tal qual meu coração

Olho para cima
para os lados
me sinto sem tamanho no mundo

FRANCISCO ALVIM

A rua defronte ao bar
onde cegos transitam
e tua visão lunar
dos seres que ali pisam

Garçom, traga-me vinho
bastante para um porre
Algumas poucas flores:
festejo alguém que morre

Um violino soa
ecoa por toda parte
nada percebem, pensam:
um mágico sem arte

Meu terníssimo amor
olha-me bem de frente
alheio a toda gula
que come aquela gente

súbito saem todos
do bar para a calçada
o poeta voa sozinho
no ombro da madrugada
FRANCISCO ALVIM

Não, não me basta o vazio
em que às coisas e seu ardor frio
nenhuma palavra dá sentido.

Muito menos o andar cauto
de quem sabe que andar
é pisar em tudo tenros vidros.

Nem mesmo o susto
quando de atenção exausto
descubro que estremeço
é porque os espelhos
são erros que não esqueço.

Não, não me basta,
como animal que resolve
fome e fúria
em sua forma casta,
não, não me basta
nascer, ver e morrer.

Quero chegar
sem nunca ter vindo
partir
sem nunca ter ido,
amar
sem nenhum sentido.

Entre a vida e a morte,
quero estar distraído.

PEDRO PAULO SENA MADUREIRA

Estou que não me sei
água, faca, ou mel.

Estou que não comecei nem acabei,
nuvem, fera ou fruto

- linguagem que não plantei
pão chegado à minha boca
por mãos de quem não fecundei.

E no entanto, amor, é isto amar:
estás corpo e alma
fincado em mim,
pássaro liberto
que pode
mas não quer
voar.

PEDRO PAULO SENA MADUREIRA


CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO
Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
desesperado e solitário
que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada,
com teu passo leve,
com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita...
A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
aonde viessem pousar os passarinhos!

MARIO QUINTANA

Pranto para comover Jonathan

Os diamantes são indestrutíveis?Mais é meu amor.O mar é imenso?Meu amor é maior,mais belo sem ornamentosdo que um campo de flores.Mais triste do que a morte,mais desesperançadodo que a onda batendo no rochedo,mais tenaz que o rochedo.Ama e nem sabe mais o que ama.

Adélia Prado


"Lembro-me bem do seu olhar,
ele atravessa ainda a minha alma,
como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto...
Sim, o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passeei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras, despreocupadamente,
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Dói-me viver como uma posição incômoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das cousas,
onde sofrer seja uma cousa mais suave,
onde viver custe menos ao pensamento.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo.
Que sente tudo que eu sonho, como se fosse real,
que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,

canções tristes,
como as ruas estreitas quando chove."

F Pessoa


Do amor
XLIX

Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
E sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedras, frontões no Todo inamovível.
terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.
HILDA HILST

Axiomas

Sempre é melhor
saber
que não saber.

Sempre é melhor
sofrer
que não sofrer.

Sempre é melhor
desfazer
que tecer.

sem mão
não acorda
a pedra

sem língua
não ascende
o canto

sem olho
não existe
o sol.
ORIDES FONTELA

EPIGRAMA
Bom é ser árvore, vento,
sua grandeza inconsciente;
e não pensar, não temer,
ser, apenas: altamente.

Permanecer uno e sempre
só alheio à própria sorte,
com o mesmo rosto tranqüilo
diante da vida e da morte.
MARLY DE OLIVEIRA


O INÍCIO DA PRIMAVERA

“ Sepultar é mais fácil que esquecer!” – observou Letícia, a Nuvem, nesta manhã inicial de primavera, rechonchuda, com as maçãs vermelhas do rosto.
E ela pensava em algumas Nuvens desaparecidas, com quem tinha laços de família.
Depois lembrou Edmundo, amigo comum, que foi apagado pelo favo de um balaço. Certeiríssi9mo no peito.
- O esquecimento é uma lembrança que adormeceu – acrescentei, como se vocábulos me escapassem.
- “ O que esquecemos acordados, nos retorna em sonho” – Letícia falou como se muitos olhos nela se abrissem. Todos vagos, distantes.
- Os mortos dormem em nós. Somos a terra deles e a nossa! – afiancei com presteza e desamparo.
E estávamos num avarandado diante do mar. O coador do café fumegava ali perto e o cheiro solto, embriagante nos entorpecia.
Faltava apenas o pão novo que o padeiro nos trazia, diariamente.
Batia na nossa porta e “pão” – gritava. Mas não veio.
E de repente algo nos tocou, impeliu e encheu o coração como a um farnel de menino. Desceu a ladeira, infância abaixo.
Nenhum esquecimento se alongava no ranger daquele prestimoso vento.
E tomamos o café puro com o pão dormido.
E deixamos todos os esquecimentos no gosto mavioso do café que a lembrança engolia.
Nos sentíamos soberanos e livres.
e não creio que tenha havido lembrança mais completa.
CARLOS NEJAR

CANTAR DE AMIGO
O claro pão
que repartimos
dá-nos um título:
companheiros.

A indagação
que aprofundamos
faz de nós, artesãos,
camaradas.

O olhar sem visgo,
a voz precisa,
o gesto mundo
eis-nos: amigos.

Quantos, que marchando pela vida
como quem carrega uma estrada,
terão amigo e companheiro e camarada?
GEIR CAMPOS

NALGUM LUGAR
nalgum lugar em que nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua intensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas
e. e. cummings
tradução de Augusto Campos

OPERÁRIO DO SONHO
A Antonio Carlos Osório

Quando ouvirdes a chuva
sou eu, sou eu
apanhador de coisas tristes.

Quando ouvirdes o galo
sou eu, sou eu
mineiro longo entre as estrelas.

Quando ouvirdes a lua
sou eu, sou eu
ilha ida entre corais de sombra.

Quando ouvirdes a rosa
sou eu, sou eu
hora tranqüila sobre as horas.

Quando ouvirdes a história
sou eu sou eu
fome e tambor atrás dos muros.

Quando ouvirdes o fogo
sou eu, sou eu
dança feroz de coisas claras.

Quando ouvirdes o mar
sou eu, sou eu
boca de sal dos feitos largos.

Quando ouvirdes a morte
sou eu, sou eu
novador de elegias antigas.

Quando ouvirdes o verde
eixo da vida
a espiralar os mundos

e quando o pensamento utópico
dos homens nas idéias livres
assim ouvirdes compassado,

então sereis o que sou
quando sou tudo e não sou

limitado por mim.
MOACYR FELIX

QUINTETOS NO OUTONO
(2ª versão)
A Fátima Pires dos Santos

I

Escrever um poema não é brincar
de ser com palavras e sons
sobre a brancura sem defesa
do papel ou da vida que não foi vivida.
No fundo dos becos sem saída
é que o poema se encontra
lado a lado com as mortes
inumeráveis e indefinidas
na mão que o escreve.
Morre e transforma-te!
Não há outro caminho:
o poema é sempre um autópsia.

II

No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes.
No lixo da praça o poeta
quer apenas um homem
com uma canção nos gatilhos
de uma revolução necessária.
No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes
à espera da poesia, cadela
feroz e machucada, cadela
que o poeta se amarra
sofre o represar da vida
mais forte que as voragens
do desejo de matar-se.
No lixo da praça, o poeta e a sua poesia
perambulam entre os ossos do mundo
a violência do sol aprisionada nas luas.

III

No fundo do prato havia um rosto.
Eu nunca pude decifrá-lo:
sua velocidade era diferente da minha,
nessas horas a minha esperança era
um pano velho que nem mais vestia
a fadiga da vida espantada.
No fundo do prato em meu país os ratos
usavam a cara dos poderosos
e comiam este rosto.
um rosto que jamais sumia
diariamente enterrado e recomposto
no rosto de cada morte operária
dentro de casa coisa que eu via.
No fundo do prato havia um rosto
que eu nunca pude decifrar.
Além de mim, no entanto, ele era o meu rosto, o rosto
em que nem sequer me encontrei
como quem cumpre, de fato, a sua própria lei.

IV

Quebrei as paredes de vidro que me cercavam.
Quebrei as paredes de tijolo que me prendiam.
Quebrei as paredes, todas as paredes, de pedra e pensamentos.
Quebrei a casca de tudo que me limitava
e saltei – alma dos mortos – para o olho do lago
que olhava do além, muito além
do que me ensinaram ser fisicamente
as rotações da eternidade no universo infindo.
Foi quando reli a palavra tolice
no atestado de óbito da poesia
natimorta porque nascida longe
das dimensões do vento em que se move
no ventre do universo a vida
incendiada pelos gritos do que devia ser do sol
soterrados sob a história e sob o trágico.
E a solidão, ela se torna total e noturna
quando pulamos a cerca que nos esconde
da nossa morte nos prometendo aos cemitérios
e ali nos quedamos, desvario apenas, sem ouvir
a frágil perfeição das várias mortes de uma flor
século após século a colorir-se, teimosa e bela
sobre as não-respostas do silêncio em todos os túmulos.

V

Sim, há sempre um som da morte dissecado
sob a palavra que nomeia e domestica
os movimentos em que se transforma a vida humana
entre o ser e o não-ser, entre o que é e o que não foi.
Morte e transformação: isso eu persigo
neste mundo em que criar também é destruir.
Por que não existe modo de andar
no que é poema, que é sempre uma autópsia
do instante, porta infinatamente aberta
no papel
pelas chaves do branco a libertar o indizível
a partir da metáfora que soube
movimentá-lo em nós como um ser vivo
do infinito em que às vezes nossa vida é
sentimento e sonho além do som e da palavra.
MOACYR FÉLIX

ATIRA PARA O MAR
Atira para o mar as tuas coisas
abandona os teus pais
muda de nome

esquece a pátria
parte sem bagagem
fica mudo e ensurdece
abre os teus olhos.

Se o teu amor não vale tudo isso
então fica onde estás
gelado e quieto.

O amor só sabe ir de mãos vazias
e só vale se for
o único projeto.
RENATA PALLOTTINI

FAZ TEMPO QUE EU QUERIA DIZER ISSO

ainda não conseguiram destruir o mar
não foram capazes de estragá-lo com fios elétricos e rodovias
nem de retalhar com cercas
ou de lotear as manchas do seu dorso
o mar ainda existe
presente na consciência dos amantes
nas madrugadas de suor cúmplice estampado nos lençóis
para podermos ver o mar
para penetrar aos poucos nesses refúgios mornos
cavernas do primitivo sonho
útero de filamentos luminosos
é preciso nos desnudarmos totalmente
e sabermos nos reconhecer
pelo toque da pele
como algo que termina e recomeça
dois poemas entrelaçados
mordendo-se como a serpente mítica
CLAUDIO WILLER


“É tão vazia a nossa vida,
é tão inútil a nossa vida
que a gente veste de escuro
como se andasse de luto.
Ao menos se alguém morresse
e esse alguém fosse um de nós
e um de nós fosse eu...”
MANUEL DE FONSECA (poeta português)


"A minha vida agora é de ninguém porque não mais em mim o percurso do teu passo, só quando estás é que os espaços se iluminam, só da tua boca é que saem palavras viçosas e também ladinas e também pesadas, mas todas de um laranja licoroso, um que só viceja no dorso e na anca de um deus. Sim, sei que na velhice hei de rir sozinha dessa minha alma de agora, vestida à colombina , mas não sei se vou rir de mim mesma, ali na plataforma da estação, vendo sumir o trem, aquele vagaroso que te levou daqui para uns longes que nem sei.
Ama-me
Meu nome é poeira.
Não sou justa nem santa
E amo como se não existisses!!!
Perfeito, claro, indômito
No escuro paraíso do meu peito."
Giusta Santini ( Ioguslávia


ODES MAIORES AO PAI I (Largo Pesante) Uns ventos te guardaram. Outros guardam-me a mim. E aparentemente separados Guardamo-nos aos dois, enquanto os homens no tempo se devoram.. Será lícito guardamo-nos assim? Pai, este é um tempo de espera. Ouço que é preciso esperar Uns nítidos dragões de primavera, mas à minha porta eles viveram sempre, Claros gigantes, líquida semente no meu pouco de terra. Este é um tempo de silêncio. Tocam-te apenas. E no gesto Te empobrecem de afeto. No gesto te consomem. Tocaram-te nas tardes, assim como tocaste Adolescente, a superfície parada de umas águas? Tens ainda nas mãos a pequena raiz, A fibra delicada que a si se construía em solidão? Pai, assim somos tocados sempre. Este é um tempo de cegueira. Os homens não se vêem. Sob as vestes Um suor invisível toma corpo e na morte nosso corpo de medo É que floresce. Mortos nos vemos. Mortos amamos. E de olhos fechados Uns espaços de luz rompem a treva. Meu pai: este é um tempo de treva. III Não é teu este canto porque as palavras se abriram sobre a mesa. Se chegavas era em silêncio e tocavas as coisas Com a leveza dos meninos arrumando os altares.Uma rosa tardia Mesmo assim desmanchava-se e tua presença na noite eu procurava. Ninguém jamais nos via quando nos falávamos. As perguntas de sempre, Os castiçais, o adro vazio da capela em frente. E as persianas fechadas, Para que o sal de fora não pousasse Nas baixelas incríveis da memória. Aquele mar repetindo seu canto Eas vozes partindo teus cristais! Como te abrigavas do ruído das estradas E os teus livros abertos, como se desfizeram naquelas areias! Nem sei de onde me vêm estes musgos, açoites, esta fonte que é nova Em minha boca, nem sei dizer da morte o que te ouvi dizer nos ecos de umas noites. Enquanto te celebro, as janelas do ocaso trazem risos. E um hóspede atravessou incógnito teu jardim, afundou-se na névoa Cansou -se do teu hálito nas arestas, nas muradas,nos cálices, em mim. És presente como um vento que corre entre portas abertas. V Sobrevivi à morte sucessiva das coisas do teu quarto. Vi pela primeira vez a inútil simetria dos tapetes e o azul diluído Azul-branco das paredes. E uma fissura de um verde anoitecido Na moldura de prata. E nela o meu retrato adolescente e gasto. E as gavetas fechadas. Dentro delas aquele todo silencioso e raro Como um barco de asas. Que fome de tocar-te nos papéis antigos! Que amor se fez em mim, multiforme e calado! Que faces infinitas eu amei para guardar teu rosto primitivo! Desce da noite um torpor singular; água sob o casco de um velho veleiro Calcinado. Em mim, o grande limbo de lamento, de dor, e o medo de esquecer-te De soltar estas âncoras e depois florir sem ao menos guardar tua resonância. Abraça-me. Um quase nada de luz pousou na tua mesa E expandiu-se na cor, como um pequeno prisma. VI Há tanto a dizer-te agora! Meus olhos se gastaram Procurando a palavra nas figuras, nos textos, nas estórias. Era preciso viajar e levantada em renúncias redescobrir a morte Além de seus sudários e tremuras. Quase nada aprendi.De nada me lembrei. Há talvez a memória de tatos, um sentir rarefeito, um ouvido inexato Deitado em solidão sobre o teu peito. E adeuses ingênuos, calados de vitória E aquele de fereza, de acerto, dissolvido em orgulho, ressuscitado Vagamente em canto. E na manhã, o meu sonho passara e a minha voz Não se erguera em poesia. Será preciso esquecer o contorno de umas formas que vi: naves, portais E o grande crisântemo sobre a faixa restrita do canteiro. Através do gradil, no terraço do tempo te percebo. E ainda que as janelas se fechem, meu pai, é certo que amanhece. HILDA HILST (Trajetória Poética do Ser - 1965- 1966- in Poesia - 1959-1967 - SP, editora Sal, 1967)

"...É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se
explica. É
como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida. Um
soco
certamente te acorda e , se for em cheio, faz cair tua máscara, essa
frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair
ou
assustar.."

de cima do palanque
de cima da alta poltrona estofada
de cima da rampa
olhar de cima

LÍDERES, o povo
não é paisagem
nem mansa geografia
para a voragem
do vosso olho

POVO. POLVO
UM DIA

O povo não é o rio
de mínimas águas
sempre iguais.
Mais fundo, mais além
e por onde navegais,
Uma nova canção
De um novo mundo

E sem sorrir
vos digo:
O povo não é
Esse pretenso ovo
que fingis alisar,
Essa superfície
que jamais castiga
vossos dedos furtivos.
POVO. POLVO.
LÚCIDA VIGÍLIA.
UM DIA...

Hilda Hilst



Obrigada à vida

Violeta Parra

Obrigada à vidaque me deu tanto.Deu-me dois olhosque quando os abroperfeito distingoo preto do brancono alto céu seu fundo estreladoe nas multidões o homem que eu amo.

Obrigada à vidaque me deu tanto.Deu-me o ouvidoque em toda sua extensãograva noite e diagrilos e canáriosmartelos, turbinas, latidos, chuvaradase a voz tão terna do meu bem amado.

Obrigada à vidaque me deu tanto.

Deu-me o some o abecedáriocom ele as palavrasque penso e declaro"mãe, amigo, irmão" e a luz, iluminandoo rumo da alma do que estou amando.

Obrigada à vidaque me deu tanto.Deu-me a marchados meus pés cansadoscom eles andeicidades e charcospraias e desertos, montanhas e planostua casa, tua rua e teu pátio.

Obrigada à vidaque me deu tanto.Deu-me o coraçãoque agita seu marcoquando olho o frutodo cérebro humanoquando olho o bom tão longe do malquando olho o fundo de teus olhos claros.

Obrigada à vidaque me deu tanto.Deu-me a risadae deu-me o prantoassim distingofelicidade de fraquezaos dois materiais que formam meu cantoo canto de todos que é mesmo cantoo canto de todos que é meu próprio canto.

Obrigada à vida!

Violeta Parra
(Tradução Maria Teresa Almeida Pina)
"Gracias a la vida"
Violeta Parra
Gracias a la vida que me ha dado tanto.Me dio dos luceros que, cuando los abro,perfecto distingo lo negro del blancoy en el alto cielo su fondo estrelladoy en las multitudes el hombre que yo amo.Gracias a la vida que me ha dado tanto.Me ha dado el oído que, en todo su ancho,graba noche y día grillos y canarios,martillos, turbinas, ladridos, chubascosy la voz tan tierna de mi bien amado.Gracias a la vida que me ha dado tanto.Me ha dado el sonido y el abecedario,con él las palabras que pienso y declaro:madre, amigo, hermano, y luz alumbrandola ruta del alma del que estoy amando.Gracias a la vida que me ha dado tanto.Me ha dado la marcha de mis pies cansados;con ellos anduve ciudades y charcos,playas y desiertos, montañas y llanosy la casa tuya, tu calle y tu patio.Gracias a la vida que me ha dado tanto.Me dio el corazón que agita su marcocuando miro el fruto del cerebro humano;cuando miro el bueno tan lejos del malo,cuando miro el fondo de tus ojos claros.Gracias a la vida que me ha dado tanto.Me ha dado la risa y me ha dado el llanto.Así yo distingo dicha de quebranto,los dos materiales que forman mi canto,y el canto de ustedes que es el mismo cantoy el canto de todos, que es mi propio canto.Gracias a la Vida!
Violeta Parra
(Letra y música: Violeta Parra)(Intérpretes: Violeta Parra, Alberto Cortez, Mercedes Sosa, dentre outros famosos).